quarta-feira, 25 de abril de 2012

Equívocos buarquianos

Numa época em que a realidade não tem andado grande coisa, alguns jornais anexam determinados produtos culturais como forma de atrair os leitores para as más notícias que trazem. Um dos jornais da praça portuguesa lançou recentemente uma coleção de livros e CDs do cantor, compositor e escritor brasileiro Chico Buarque. Não deixa de ser interessante notar que um dos mais militantes esquerdistas da cena cultural brasileira sirva aqui como isca para as más notícias de um mundo iniquamente inquinado à direita.

A complexidade das letras de algumas canções de Chico Buarque tem também proporcionado leituras erradas das mensagens que transportam. Uma das canções (de Chico Buarque em parceria com Ruy Guerra) que tem dado azo a interpretações equivocadas é o Fado Tropical, que no seu refrão contém a frase «ai, esta terra [Brasil] ainda vai cumprir seu ideal, ainda vai tornar-se um imenso Portugal». A interpretação mais frequente é a de que esta letra alude ao desejo de verem no Brasil a ditadura dar lugar à democracia, como teria ocorrido em Portugal com a revolução do 25 de abril de 1974. Os vídeos dessa música mais visualizados no Youtube têm como pano de fundo imagens da revolução dos cravos.

A interpretação faz sentido. Mas apenas se atribuirmos a Chico Buarque e Ruy Guerra capacidade para uma visão premonitória, pois essa canção foi gravada em 1973. A canção foi escrita para a peça Calabar, num tom irónico, pretendendo debochar de uma certa aristocracia brasileira com dificuldade em desligar as suas referências culturais dos padrões do colonizador. O que na interpretação mais corrente é visto como um desejo utópico, não passa, na verdade, de uma crítica a uma certa realidade.

Também eu, em tempos, tive um pequeno equívoco (além da leitura anacrónica, é claro) com a letra dessa canção. A primeira versão que possuí foi gravada numa cassete a partir de um LP que me emprestaram. Num determinado ponto da canção é recitado um belíssimo soneto sobre a essência da alma lusitana:
Todos nós herdamos no sangue lusitano uma boa dosagem de lirismo (...)
Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar, trucidar
Meu coração fecha os olhos e sinceramente chora
Entre a primeira e a segunda frase destes versos ficou a minha gravação maculada com o que supus ser um dos frequentes e arreliadores saltos de agulha ao percorrer o vinil. Fiquei com a convicção de que algo mais deveria existir entre essas duas frases. 

Na minha primeira visita ao Brasil, aproveitei para ampliar a minha coleção de músicas de Chico Buarque e, como não podia deixar de ser, regravar uma nova versão do Fado Tropical. Enquanto a agulha do giradiscos rolou sobre o vinil, a conversa também rolou farta. De modo que só em Portugal reparei que no Fado Tropical, exatamente no mesmo ponto da gravação anterior, havia também um arreliador salto. Grande coincidência. Maldita coincidência!

Só anos mais tarde vim a saber que o corte (literal) tinha sido feito na fita da gravação original pela censura brasileira, por não concordar que entre as tais duas frases, tivessem os poetas acrescentado «além da sifilís, é claro». Impurezas da raça não podiam ser postas em evidência. E, por causa desse corte na gravação original, não há até hoje nenhuma versão da canção onde não se note o tal salto. 

6 comentários:

  1. Um excelente texto, Exilado! Gosto sempre do quebrar de "mitos". Nós, portugueses, somos exímios em embelezar tudo o que diga respeito ao nosso país. A nossa História está cheia desses tiques e ainda é essa História que é ensinada nas escolas. Por isso, há tanto contraste entre o discurso sobre Portugal (esse "lindo jardim", esse "país de poetas") e a realidade dos portugueses.

    O Eça é que tinha razão...

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    1. Nada como a distância de uns bons exílios para enxergarmos melhor aquilo que somos e a forma como nos vêem...

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  2. Olá! Gostei muito deste deste seu texto. Muitas vezes a forma como nos vêm não tem nada de lírica e não adianta querer dourar a pílula. Tive curiosidade de pesquisar na net, para ver se aparecia a letra na integra e num sítio Brasileiro a letra constava com alusão à sífilis e num Português não ;)

    Boa semana

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    1. Olá, L.Maria, fico contente que tenha gostado. Se a letra foi transcrita diretamente da canção, é natural que não apareça a frase extra no sítio português. No Brasil esse detalhe é relativamente conhecido e normalmente incluem essa frase extra, mesmo não constando de nenhuma versão gravada. Boas leituras (e boas escritas)!

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  3. Aproveite para OuVer a versão original dita por Carlos do Carmo com a Sífilis no sítio certo.
    https://www.youtube.com/watch?v=HiN5AqGaSM8

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