sábado, 19 de março de 2011

Pai

 Pai?
 Sim.
 Logo à noite quero ir à Kapital.
 Capital? Mas, já estamos em Lisboa.
 Não, pai, quero ir à Kapital com K, a discoteca.
 "Quero ir"...
 Tu também?!
 Não, apenas achei interessante a forma como disseste: "quero ir".
 Querer quero. Se posso ou não, isso é outra questão.
 Não achas que ainda és muito nova para começares a ir a discotecas?
 Começar?! Já fui lá várias vezes.
 Já?! A tua mãe tem permitido?
 Sim. E acha normal.
 Normal, no tempo dela, era uma rapariguinha de catorze anos ficar em casa a ver televisão.
 Normal, no meu tempo, é uma rapariga de quase quinze anos ir a discotecas.
 E que vais tu fazer a discotecas?
 Ora, pai, dançar, namorar, beber, divertir-me! Fica tranquilo, sabes que ainda não bebo álcool.
 Namorar?!
 Sim, o Renato.
 O Renato?! O coleguinha do colégio?
 Sim. Agora é o namoradinho do colégio.
 Não são muito novos para isso?
 Para falar verdade, sinto que já comecei um pouco tarde. Quase todas as minhas amigas têm namorados há bastante mais tempo do que eu. Algumas já vão no segundo e umas quantas no terceiro.
 É sério?
 Bem, a maior parte são namoricos só para andar, nada muito sério. Mas algumas já perderam a virgindade. Eu confesso que ainda não me sinto preparada para isso.
 Ainda bem!
 Não sei... Mas, pai, levas-me à Kapital?
 A que horas?
 Gostaria de estar lá por volta da uma?
 Chegar à uma da manhã?!
 Sim!
 Hum, e o Eixo do Mal?
 Eixo do mal, pai? Vais deixar de dar boleia ao teu bem mais precioso por causa de um tal eixo do mal?
 Não sejas cínica...
 Cínica? Não, pai, estou apenas a lembrar-te aquilo que há anos me ensinas: entre o bem e o mal, escolher sempre o caminho do bem.
 Está bem, está bem... E para voltares?
 Temos duas opções: venho à boleia com o irmão mais velho do Renato, ou vais lá buscar-me.
 Só temos uma opção! A que hora queres que te pegue?
 Por volta das seis. Mas não precisas de ter pressa!
 Quando chegar dou um toque.
 OK. És o pai mais fixe do mundo!

Horas mais tarde, o pai reparava que no carro a seu lado não ia uma rapariguinha de catorze anos, mas uma mulher feita. Pela primeira vez tomava consciência de que a sua postura perante o complicado universo feminino estava a mudar. Começava a encará-lo agora mais na perspectiva de «produtor» do que na de «consumidor».
 Pai?
 Sim.
 Emprestas-me 20 euros?
 Empresto. Emprestar, quer dizer...
 Quer dizer isso mesmo. Prometo que quando tiver o meu primeiro emprego te devolvo os 20 euros.

O pai nessa noite foi dormir com a sensação de ter levado alguns murros no estômago. Uns mais intensos do que outros. Mas não podia deixar de se sentir orgulhoso pela capacidade de argumentação da filha. Sinal de que estava a ser bem preparada para enfrentar o mundo. Isso deixou-o um pouco mais aliviado.

7 comentários:

  1. continuação...

    Filha, "quero ir à Kapital com K, a discoteca", é uma expressão que se usava no meu tempo... e que durou pouco. Agora, as saídas à noite são mais para o lado das Docas por que a Kapital faliu tem muitos Anos!....

    Por isso, escolhe outro lugar e aí sim, eu empresto-te os 20 euros!

    Lembra-te: "entre o bem e o mal, escolher sempre o caminho do bem", ou seja, não gastes mais que os 20 euros.... ;)

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  2. Esta história é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência :)

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  3. “Voa Maria voa”

    Vento que sopra nas asas
    Colocou a Maria a voar
    Vendaval não pode parar
    Em Bruges há-de aterrar

    Estava muito produzida
    Segura com Júlia a falar
    E tudo ela soube explicar
    Nosso apoio é pr’a ficar

    Vejam o vídeo na rede
    Se não querem acreditar
    Neste exemplo sem par

    Voa nas asas do vento voa
    E não se cansem de ajudar
    Sonho assim não pode parar.


    http://takeustobruges.blogs.sapo.pt/

    http://sic.sapo.pt/proj_queridajulia/Scripts/videoPlayer.aspx?videoId={B0C9642E-CECC-4E34-9EBA-3647D34DABA4}

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  4. Quem sabe, um dia... Mas a filha ainda não é sequer nascida!

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  5. A menina que falou assim, ficção, ou não, também me parece bem preparada para enfrentar o mundo. Está certo dizer "quero ir" e só depois perguntar "posso". Desde que pergunte, tudo bem, e o "quero" revela personalidade e auto-estima (duas características preciosas). Dizer que ainda não se sente preparada para perder a virgindade, também revela maturidade. E é sincera, o que é igualmente importante.

    Sim, eu diria que o pai pode dormir descansado :)

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  6. que pai tão totó!

    As filhas de 14 anos não vão para a Kapital nem para os arredores à uma e não voltam às 6. Ponto.

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