sábado, 26 de março de 2011

O pesadelo da Scarlett


Um verdadeiro pesadelo. Eu tinha lido na véspera que hackers haviam invadido o iPhone dela e de lá retirado fotos muito comprometedoras, mas não me passou pela cabeça que o meu nome pudesse estar em causa. Só passei a levar em conta essa possibilidade depois que o meu sobrinho me telefonou. Entre elogios à proeza do tio — até aí totalmente desconhecida — e aos dotes físicos da Scarlett, eu deduzia que nas fotos roubadas pelos hackers ela não estava só. Mas não podia ser eu. Estava seguro que o telemóvel dela era um Nokia!

Conheci a Scarlett quando decorriam as filmagens do Vicky Cristina Barcelona. Tinha bem presentes os detalhes do nosso encontro: eu a desfrutar a tranquilidade do meu entre safras e ela a necessitar urgentemente de uma boa colheita. Ambos solitários naquele restaurante perto de Las Ramblas. O meu olhar rapidamente se fixou na mesa ao lado: primeiro na paella e logo depois só para ela. Apesar de uns ligeiros toques de disfarce, não tive dúvidas de quem se tratava. Abordei-a com um «are you lonesome tonight?» e nem precisei de esperar que a conversa avançasse muito para saber que já encaixava bem o «do you miss me tonight?». Inexplicavelmente — ou talvez nem tanto — a ambas as perguntas corresponderam respostas afirmativas.

Soube depois que ela acabava de ser rejeitada pelo Bardem — que optara pela Penelope — e precisava urgentemente de afogar as suas mágoas. E o meu aspeto de encorpado moreno latino a expressar-se num inglês com ligeiro sotaque ibérico era exatamente o que ela estava a precisar. Começamos por afogar as mágoas — eu não as tinha, mas imediatamente me solidarizei com ela — num Vega-Sicilia e terminamos, já manhã alta, com um Moët Chandon numa suite do Hotel Hilton onde ela estava hospedada. Pelo meio muita loucura. As fotos incluídas.

Depois da chamada do meu sobrinho, o telefone começou incessantemente a tocar: família, amigos, colegas e, finalmente, a comunicação social! Acabavam de considerar-me o português mais bem-sucedido da década, com honras e deferências de ilustre cavalheiro. Um feito inigualável!

Rapidamente me apercebi que o pior tinha acontecido: a Scarlett tinha transferido as fotos do Nokia para o iPhone, comprado — lembro-me de lhe ter recomendado a compra — tempos depois do nosso affair. Quiçá, para com mais frequência recordar o português mais bem-sucedido da década, que lhe proporcionara uma das noites mais memoráveis de sempre. Palavras dela. Em inglês, claro.

Mas isso não podia estar a acontecer comigo! A minha vida de modesto matemático exilado no mundo que tanto preza o sossego do anonimato para ir alcançando os seus resultados não mundanos estava irremediavelmente comprometida. Que terrível agonia!

Foi neste ponto que o pesadelo acabou: o meu cão veio avisar-me que estava na hora de acordar. Já passava das nove e fazia parte do nosso trato levá-lo para o passeio matinal. Desci feliz e agradecido por ter sido resgatado daquele pesadelo tão agoniante. Passeei-o incógnito pela vizinhança, na minha vida recatada de sempre. Aproveitei os primeiros minutos da manhã para acrescentar uma inesperada boa ideia a um problema que me sobrara de véspera. Sentia-me anormalmente inspirado!

11 comentários:

  1. Muito bem escrito. Diverti-me imenso. Obrigado.
    Este blogue é uma lufada de ar fresco...

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  2. Muito obrigado. Comentários elogiosos são sempre (muito) apreciados! :)

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  3. que homem brutal, voce. aproveitar de uma garotinha fofinha souzinha nas ramblas.....

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  4. Um passeio com o cão costuma pôr muitas coisas em ordem ;)

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  5. Por vezes é bom acordar!
    Gostei de descobrir este blog, vou visitar mais vezes! :)

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  6. Será sempre bem vinda! Mesmo que o que aqui lê a leve a falar (escrever, no caso) mal do autor :)

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  7. :))

    Olá, Exilado

    Do meu sonho ao seu pesadelo ou vice-versa... ou do seu pesadelo ao meu pesadelo... :))

    Encontrou-lhes alguma semelhança? Talvez no aspecto de que serão situações inatingíveis, em determinados aspectos, não sei...falo por mim. O que acha?

    Devo dizer que gostei bastante deste seu texto. Escrito de uma forma excelente e que convida à leitura.

    Sabe? Quando se insere o endereço que me deixou, na pesquisa do Google, o resultado que aparece é que não existe. Tive de procurar pelo tema constante do referido endereço. Aí apareceu em todo o seu esplendor.

    Outra coisa: tive dificuldades em pesquisar no seu blog. Acho que é um bocado avançando para mim. Mas com a prática talvez lá chegue...porque penso voltar.

    Abraço

    Olinda

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    1. Obrigado pela visita! O que me fez lembrar do meu texto não foram os factos em si, mas sim a falsa realidade sonhada. Apesar de, no meu texto, eu ser mais perverso com o leitor :)

      Quanto ao formato do blogue, no começo é um pouco estranho mas depois que se entende a orgânica, acaba sendo funcional. Na lateral direita há uma pequena barra auto-ocultável com arquivo e tópicos, entre outros. Na barra superior horizontal, à esquerda, há a opção de escolha entre vários formatos de apresentação. Enfim, coisas do Dynamic Views que me agradaram.

      Volte sempre!

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  8. Mas que aborrecido; visitei Barcelona na altura da rodagem do Vicky Barcelona e só me calhou o fuinha do Woody; o chapéu dele cativou.

    Porém, o exilado, mesmo em sonhos,tem uma história e tanto. A Scarlett é bonitíssima e tb a Uma Thurman, se eu homem, não desdenharia. Mas Penélope Cruz derrama charme por tudo quanto é sitio. Uma Audrey Hepburn com banho de sensus.

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