terça-feira, 8 de março de 2011

Dados

"When men are scared of a woman, 
they always accuse her of being mannish"
Elizabeth Aston

A Zirinha caminhava em passo apressado rumo à estação de metro, deixando para trás o hotel onde acabava de cometer a maior loucura da sua vida. Por estranho que pudesse parecer (e a ela parecia-lhe), não lhe passava pela cabeça qualquer tipo de arrependimento. Tampouco a certeza de que não voltaria a cometer loucura igual. Nem diferente. Considerava-se satisfeita, mas sentia no íntimo uma ligeira sensação de televisão a preto-e-branco.

Apesar dos sete anos de casada e das duas gravidezes quase de enfiada, a Zirinha soube manter o corpo de aspeto não resignado, com volume e formas sempre muito sedutoras. Só não sabia que teria coragem de despertá-lo para outro que não o Alberto, seu primeiro e único namorado, com o qual se casara ao fim de três anos de namoro. Virgem — em todos os sentidos. E, não fosse ter visto o Brad Pitt em Lendas da Paixão, podia até afirmar que casara virgem também em pensamento. A Zirinha, que sempre foi uma menina de impulsos, decidiu — sem causa aparente nem motivo forte — ainda em fase precoce do namoro que iria conservar-se intacta até à lua-de-mel. Decidiu e cumpriu. Algo que lhe custou vários ataques de desespero do Alberto, a pouca admiração das amigas mais engajadas em movimentos feministas e, anos mais tarde, algum arrependimento pela falta de outras experiências.

Na viagem de metro até casa, reviu em pensamento os acontecimentos desde que a Margarida a deixara sozinha no Shopping. Almoçaram juntas e, como de costume, a Margarida saiu apressada para o trabalho. A Zirinha tem um emprego com horário bastante flexível que lhe permite até dar-se ao luxo de esporadicamente não aparecer, bastando justificar com um simples «surgiu um imprevisto» por SMS. Não podia imaginar que, poucos minutos após a saída da Margarida, viesse sentar-se na mesa exatamente em frente aquele forasteiro com o qual viria a dar largas, primeiro à imaginação, depois à conversa e finalmente ao corpo. Dele pouco mais conhecera além do aveludado da voz, o desempenho corporal e um ligeiro sotaque estrangeiro. Nome, nacionalidade, número de telefone, local de residência, nada lhe passara aos registos. Desde a inicial troca de palavras, a conversa ficou centrada no aqui e agora, tendo rapidamente evoluído para patamares ao nível da física e da química.

Estava agora prestes a chegar a casa. Não vislumbrava ainda o motivo pelo qual desta vez, de forma tão revolucionária na sua vida, deu abertura para que um completo desconhecido lhe tivesse cativado primeiro o olhar e depois todos os outros sentidos. Talvez apenas um impulso. Contaria à Margarida? Não, ela não iria acreditar. Além de que, descuidada como era, alguma vez poderia deixar escapar um comentário imprudente perante o Alberto. Apesar da aventura, não lhe passava pela cabeça viver sem o Alberto. Continuava a sentir que ele era o homem da sua vida, a sua televisão a cores. Agora com mais dados a atestar essa verdade.

4 comentários:

  1. Coisas que acontecem...

    (Eu gostava era de ter um emprego como o dela).

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  2. Não lhe inveje o emprego. Ela é uma precária...

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  3. Mau. Então a Zirinha que tanto se guardara, depois vai atrás de uns olhos de veludo sem mais nem ontem,e volta sem pena nem paixão. Não dá para acreditar na personagem. tem de adjudicar-lhe mais substância , está muito à percefície de nada. Esse tipo, se existe, é como disse o joZe, precário (sem ofensa para o trabalho)

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    1. As maiores loucuras são, muitas vezes, feitas sem muita consistência. A Zirinha guardou-se bem até certo ponto, mas depois, inexplicavelmente, deixou-se entrar na precariedade. O inexplicável também anda por aí á solta...

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